quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Seção Peneiramento: Esdras Poty de França





É com muita alegria que divido com você, leitor do Blog do Concreto, esta sensacional entrevista com o grande Esdras Poty de França, Engenheiro Civil, Tecnologista de Concreto, Professor do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais nos cursos de Técnico em Edificações e Engenharia de Produção Civil. Um profissional muito presente e atuante no meio técnico em instituições como ABESC, ABNT, ABCP, IBRACON. Uma figura facilmente reconhecida em cada laboratório, universidade, concreteira, construtora, entidade de classe. 38 anos de dedicação à profissão. Meu mestre, que me ensinou tudo desde o primeiro corpo de prova. E o primeiro a encarar nossa “Seção Peneiramento”:

 


Peneira 4.8 – Como você começou sua carreira como tecnologista de concreto?

Em 1973, ainda estudante do Curso Técnico de Edificações, consegui um estágio no Laboratório do Eng. Mario Fox Drummond (uma referência, na época. O meu primeiro encargo foi ler um livro de normas técnicas, acredito que a minha fixação por normas está explicada. Comecei como Laboratorista no setor de ensaios de cimento, depois passei a executar ensaios de agregados e, como conseqüência natural fui para a área de concreto. Naquela época, 1975, acreditava que sabia tudo de concreto. Na ocasião fui escalado, juntamente com meu amigo Rubens Pedrosa, para acompanhar a execução das estruturas da Ponte sobre a Ilha do Príncipe em Vitória/ES, foi aí que compreendi que não é possível ser um tecnologista sem antes passar pela maior faculdade que se pode cursar: A Faculdade da Vida. No mesmo ano fui transferido para as obras da Samarco em Mariana/MG onde aprendi com os americanos da Bechtel que organização e planejamento são ferramentas essenciais no controle de qualidade do concreto, tão importante quanto o nível tecnológico. Antes mesmo de terminar o Curso de Engenharia passei a trabalhar em concreteira, fato que mudou minha visão do concreto: a partir daquele momento eu conseguia sentir, em tempo real, todas as conseqüências de minhas decisões.

 


Peneira 2.4 – Como você avalia o atual estado da tecnologia de concreto empregada nas obras em nosso país, comparando com o potencial que é desenvolvido nos laboratórios e universidades?

Quando comecei a grande maioria das obras rodava concreto em padiolas. Em 1972, meu professor de Tecnologia das Construções ensinava mistura manual do concreto, em 1973 era comum adensar o concreto dos pilares com vergalhão de aço e transportá-lo em latas. Hoje, nos grandes centros, “virar concreto em obra” já faz parte de um passado que a cada dia fica mais distante. O advento das concreteiras contribuiu de modo significativo para o desenvolvimento da tecnologia do concreto, fato inquestionável, apesar das inúmeras reclamações sobre a qualidade do atendimento. Nas faculdades, principalmente as públicas, existe um forte movimento para o aparelhamento dos laboratórios e incentivo a pesquisa nos cursos de pós-graduação. Participei das duas realidades e posso afirmar, com muita ênfase, que ainda falta uma maior integração dos dois setores. Essa integração seria extremamente benéfica para as Faculdades que poderiam identificar os reais problemas de nosso dia-a-dia e desenvolver pesquisas em conjunto com a obra no sentido de elevar e implementar soluções originais, criativas e exeqüíveis.

 


Peneira 1.2 – Dentre todas as histórias e realizações, o que você viu de mais impressionante por ai?

Ao longo de 40 anos é possível participar de projetos extremamente interessantes, cada um deles daria um artigo técnico de alto nível. Entre alguns posso destacar uma concretagem que fizemos em uma mina subterrânea que consistiu no envelopamento de uma comporta metálica que receberia uma pressão hidrostática equivalente a 30 kgf/cm2. O concreto utilizado no envelopamento deveria ser preparado em betoneira comum de obra com emprego de padiolas, não poderia apresentar nenhum nível de retração e ser dimensionado para atingir uma expansão de 5% no seu volume. O concreto deveria ser executado no nível superior da mina e lançado, por meio de um tubo, em queda livre de 300 metros de altura. Na base do tubo foi instalado um equipamento de remistura, utilizado nas minas da Africa do Sul. Após a remistura o concreto era direcionado para a bomba estacionária equipada com 150 metros de tubulação horizontal e bombeado até o local da comporta, garantindo total estanqueidade entre a comporta e as paredes laterais do túnel semi circular.

 
 


Peneira 0.6 – Como é para você a experiência de ensinar, sobretudo ao perceber que uma grande quantidade de bons profissionais aprenderam com você ou tiveram no seu trabalho fonte de inspiração?

Lecionei durante trinta e um anos e cinco meses e posso garantir, com orgulho, que mantive ao longo de todos esses anos a mesma seriedade, motivação, responsabilidade e comprometimento do primeiro dia de aula. Não existe maior realização profissional para um docente que o reconhecimento, o carinho e a gratidão de um ex-aluno. Já se passaram mais de dois anos que aposentei e, ainda hoje, nas obras, a grande maioria das pessoas me chama “professor”. Esse título é mais que suficiente para me sentir recompensado, mas ainda não suficiente para compensar o vazio de estar longe das novas gerações.

 
 


Peneira 0.3 – Quando nós nos entregamos ao trabalho com a profundidade e intensidade com que você se entrega, problemas eventualmente acontecem. Qual foi o seu momento mais difícil?

Problemas sempre vão ocorrer, por mais meticuloso, responsável e cuidadoso que seja a empresa ou profissional envolvido. Aprendi desde cedo que o concreto é um material “lógico”. A análise criteriosa e detalhada de um sintoma patológico sempre irá nos revelar a causa. Pode ser que você não consiga identificar a causa, mas ela existe, pode ter certeza. O meu momento mais difícil foi em 1977 quando ocorreu um acidente em uma grande siderúrgica, durante o transporte do aço retirado do alto-forno. O material em estado de fusão se espalhou por uma superfície de concreto e endureceu rapidamente formando uma camada de 13 cm. Os técnicos da siderúrgica furaram a camada de aço e utilizaram explosivo para fragmentar e retirar o material metálico. O impacto da explosão seccionou a laje de concreto. Na ocasião chovia torrencialmente há vários dias e o nível do lençol freático era superior ao nível da laje que rapidamente ficou inundada. A Siderúrgica interrompeu imediatamente as operações visto que o risco de explosão, em caso de novo acidente, causaria danos irreparáveis nas instalações. Na ocasião eu já estava cursando o primeiro ano da Faculdade e fui convocado para resolver o problema. Ao chegar ao local a equipe de técnicos fez a descrição dos fatos ocorridos e destacaram que cada dia de paralisação representava um prejuízo de um milhão de dólares. Era a manhã de sábado e a meta era retornar as operações na segunda. Propus a abertura de poços no entorno da laje e bombeamento da água. Essa proposta foi logo descartada visto que seria demorada e a água seria imediatamente reposta devido à chuva ininterrupta. E agora? O que fazer? De repente veio a solução. As mais simples, mais objetivas e menos onerosas, em sua grande maioria, são as mais eficientes e, nesse caso, era a solução óbvia: Retirar a água que estava sobre a laje e lançar uma nova camada de concreto com 10 cm de espessura (concreto de baixa permeabilidade). Na mesma hora ocorreu o questionamento que o nível do lençol freático estava acima dos 10 cm previstos. Sugeri, então, a execução de uma parede de concreto no perímetro da laje e aplicação do water-stop, uma chapa de aço com 25 cm de altura, com parte inserida no concreto da laje e parte inserida na parede, impedindo assim a percolação da água através da junta laje-parede. No dia seguinte executamos as ações previstas e na segunda-feira a siderúrgica já estava funcionando.

 

 


Peneira 0.15 – O que você ainda gostaria de aprender?

Terminei o Curso de Engenharia Civil em 1980 e até hoje sinto uma lacuna na minha formação: deveria ter estagiado ou trabalhado em um escritório de cálculo. Não basta conhecer os materiais utilizados em uma estrutura de concreto armado ou protendido, mas, também, como a estrutura se comporta frente as cargas e ações que incidem sobre ela.

 

Peneira 200 – Se você pudesse voltar no tempo, até o dia em que teve nas mãos seu diploma do curso técnico, o que você faria diferente?

A opção de me inscrever no Curso Técnico antes da graduação foi uma decisão acertada. O foco do Curso Técnico na formação prática de seus alunos, sem prejuízo de sua formação teórica, foi fundamental para realizar um bom Curso de Engenharia. Hoje sinto que “saber fazer” e “saber como fazer” são a chave do sucesso em nossa profissão. Com certeza, não faria nada diferente.

 
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sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Visitas ilustres e testes com auto adensável de aplicação horizontal

 
 
 
Há alguns dias eu tive uma surpresa muito agradável. Recebi no laboratório a visita de um fã do nosso Blog do Concreto, o Guilherme Luiz, aluno de engenharia da FUPAC de UBA, Minas Gerais. Ao comentar deste humilde canal com seu professor de materiais, acabou descobrindo que este era meu grande amigo e colega de trabalho, o Weiller Silva, competentíssimo e multitalentoso especialista lá da companhia. A partir daí ficou fácil combinar a visita. Em dois dias, tive a oportunidade de lhe apresentar o laboratório e ele pode acompanhar alguns teste de escala industrial que estávamos conduzindo na época.
 

Quem diria?! Eu tenho um fã! rs
 
 
Um dos testes que o Guilherme acompanhou, foi a primeira aplicação horizontal, bombeável e acabada do Agilia Concrete. Como já dito aqui, trata-se de um auto adensável de longa duração impressionante, agora em uma versão que combina as mais recentes tecnologias de materiais e técnicas de dosagem. O teste foi muito satisfatório e nos permitiu aprender muito sobre este concreto que, segundo as apostas de todos, será o novo padrão de operação na maioria das obras do futuro próximo. O vídeo abaixo, o primeiro que eu posto aqui por sinal, dá uma ideia da enorme mobilidade e capacidade de preenchimento e nivelamento do Agilia, mesmo após horas de permanência no caminhão:
 
 

Na versão para aplicação Horizontal, o Agilia atinge sua performance máxima em termos reológicos. Demonstra sua capacidade de utilização em concretagens de grande porte e área, quase sem interferência ferramental ou condução pela mão de obra. Basta bombear até atingir a cota de nível e aplicar um acabamento muito fácil, com o uso de uma ferramenta especial muito simples.
 

Aplicação do acabamento no Agilia Concrete Horizontal
 
Outra visita que me deixou muito feliz foi a do meu grande amigo, o Engenheiro e consultor (e agora fotógrafo!) Lucas Caputo. Já tive a oportunidade de fazer poucas porém frutíferas parcerias com ele e, de toda conversa que temos, sempre me surge alguma ideia muito boa, que acaba dando origem a um projeto. E por falar em projetos, segue o link de um blog que ele está começando, muito útil para aqueles colegas que lidam com problemas relacionados a patologias ou que se interessam por perícia técnica e projetos de estruturas. Este link leva direto para o post que eu mais gostei:
 
 
Conhecer pessoas novas ou rever velhos amigos. Revisitar velhos projetos ou tentar coisas inteiramente novas. Aprender ou ensinar algo surpreendente. De uma forma ou de outra, o trabalho é sempre compensatório. Principalmente o trabalho duro. Até breve, com um texto te conteúdo técnico. Forte abraço!
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sábado, 27 de julho de 2013

Teor de Argamassa ideal: a correta proporção entre os agregados




Durante os últimos dois anos, eu passei uma significativa parcela do meu tempo perseguindo uma espécie de obsessão. Comprei um quadro branco, daqueles em que se usa canetas de tinta não permanente e ficava horas a fio em pé rabiscando e falando sozinho. De repente meu limitadíssimo campo cognitivo matemático pedia socorro e eu sentava na frente do laptop abusando da capacidade do Excel em traçar tendências exponenciais e aproximações por regressão linear. Aí eu jogava no lixo um maço de folhas de papel randomicamente preenchidas com equações esdrúxulas, olhava no relógio e, verificando que já era quase amanhã, trancava o laboratório e dirigia pra casa.

 
O que eu queria era uma formula, ábaco, tabela ou método, qualquer coisa que fosse capaz de predizer o “Teor de Argamassa” de um traço de concreto a partir apenas das especificações de projeto e dos valores obtidos dos ensaios dos materiais. O chamado Teor de Argamassa é uma maneira de quantificar e descrever o proporcionamento entre areia e brita de um traço. Existem outras, como por exemplo o muito usado fator B/A, um número que simplesmente divide a quantidade de Brita pela de Areia. Outra maneira é pela determinação da mistura de máxima densidade aparente, nos métodos de empacotamento de partículas.
 

Na minha modesta opinião o Teor de Argamassa é a forma mais simples e adequada de trabalhar a proporção de britas e areias. O método da máxima densidade aparente é excelente para casos especiais, mas as vezes, peca por não levar em conta aspectos importantes ligados à trabalhabilidade. O valor B/A renega a influência da presença de cimento, criando uma segunda variável que complica minha cabeça. Por isso aprendi a raciocinar o traço pelo Teor de Argamassa que é, nada mais, o percentual de materiais secos presentes no traço de concreto que não podem ser chamados de brita. Por exemplo, em 1000 L de concreto, se 20 L for espaço vazio e 200 L for água, tenho 780 L de materiais secos (cimento + areia + brita). Se desse total, 390 L for brita (metade) então eu terei 50% de argamassa, composta por areia e cimento. Podem ser várias areias e vários materiais cimentícios diferentes, incluindo as adições minerais inertes.

 

algumas das relações usadas no estudo

Ora, este valor é muito, muito importante. Ele determinará se o traço será estável, ou seja, se durante o uso seus constituintes manterão uma massa coesa, sem separação de fases. Dirá também se uma bomba de concreto será capaz de lidar com o material sem entupir ou sofrer danos. Propiciará um acabamento adequado e controlará o surgimento de alguns tipos de fissuras. Dirá quanto de água será necessário para se atingir um slump adequado e isso determina a quantidade de cimento e o custo final. Afetará, sensivelmente, o módulo de elasticidade e o módulo de ruptura à tração. Ajudará a controlar o nocivo fenômeno a exsudação ou “sangramento” do concreto. Enfim, juntamente com o fator água cimento este é um dos parâmetros mais importantes da fórmula. O problema está justamente em definir o seu valor.
 

Para o fator água cimento, temos métodos já dominados. Podemos lançar mão de experimentos de laboratório. Simplesmente posso moldar corpos de prova com diferentes consumos de cimento e descobrir o valor mais adequado para minhas especificações. Mas para o Teor de Argamassa eu nunca tinha conseguido um meio objetivo de definição. Sempre precisei contar com referências anteriores ou com a experiência sensorial, literalmente “metendo a mão na massa” e precariamente inferindo se o percentual estava ótimo ou se precisava de meio por cento pra mais, pra menos. Claro que existem limites conhecidos, mas a maior parte do trabalho é táctil-visual e/ou por dedução geométrica sobre uma base de dados anterior. O diabo é justamente quando não se tem dados anteriores, nem a chance de estar presente no estudo experimental...
 

A Companhia em que eu trabalho está em franco processo de expansão. As distâncias ficam maiores, os deslocamentos mais caros e os prazos mais curtos. Comecei a precisar delegar a realização de experimentos planejados em BH para serem consumados em Recife, Natal ou mais ao norte. E quando se passa muito tempo fazendo com as próprias mãos é difícil enxergar com qualidade pelos olhos de outra pessoa. Então, na fase de planejamento eu precisava de uma fórmula mágica para solucionar o problema do teor de argamassa.

 
A solução que escolhi foi olhar para o passado. Eu tinha a minha disposição uma invejável coleção de dados referentes a 11 anos de formulações de concreto com os mais diferentes e variados tipos de matéria prima, para concretos de múltiplas finalidades, características, comportamentos. Era só uma questão de enxergar dentro de uma miríade tridimensional de milhares de valores as relações estáveis entre o Teor de Argamassa e parâmetros obtidos facilmente por ensaio de matéria prima ou leitura do projeto estrutural. E, por maiores que sejam as variações, em se tratando de concreto sempre se acha uma relação matemática entre os parâmetros. As principais relações que eu consegui quantificar em minhas noites paranoicas super-cafeinadas se referem aos comportamentos seguintes:

 
·        Quanto menor o módulo de finura da areia, menor será o Teor de Argamassa ideal;

·        A medida que o teor de materiais finos (menores que areia) se eleva, o Teor de Argamassa se reduz, até atingir um valor crítico em que precisa voltar a subir, com uma taxa de variação diferente;

·        Quando o teor de Argamassa é adequado à finura da areia, a variação do consumo de água entre areias de diferentes módulos de finura é muito menor que o esperado (confirmando uma valiosa dica que recebi de um leitor deste blog, o senhor Cristiano Florentino, no texto “O modulo de finura da areia e sua influência sobre o consumo de água do concreto”);

·        O fator água cimento afeta a relação entre o Teor de Argamassa e o consumo de finos, porque o cimento é um tipo de material fino mais representativo que os pulverulentos inertes.
 

Por outro lado, graças às referências que me foram ensinadas pelo Eng.º Hugo Renato Monteiro, consegui deduzir experimentalmente referências que corrigem o Teor de Argamassa conforme a granulometria da brita e o slump do traço. Junto com outras destas referências, eu as batizei de “Constantes Monteiro”, pequenos “teoremas” que se somam à teoria raiz, corrigindo e customizando o valor. Depois, juntando uma excelente ideia do Eng.º Marcelo Singulani com uma linha de pesquisa de concretos especiais, consegui enxergar uma maneira simples de considerar a forma e textura da brita na teoria. Pronto! Eu tinha nas mãos a equação mais feia, medonha e cheia de penduricalhos da história da tecnologia de concreto. Mas estranhamente eficiente!

 
Então, queridos leitores, além de contar uma estória e me gabar pelo trabalho de força bruta, contornando a pura incompetência técnica, este texto também tem a finalidade de chamar a atenção para a importância do proporcionamento entre os agregados. Encontrar o número correto é uma questão de qualidade e economia. Oportunidades de melhoria por vezes podem estar obscurecidas por juízos de valor ou pela simples falta de experiência, da qual compartilho, mesmo após 11 anos de militância. Forte abraço!
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quinta-feira, 6 de junho de 2013

O Modulo de Finura da Areia e sua influência sobre o consumo de água do concreto


 

Antes de iniciar este post, acho que devo desculpas aos muitos colegas que prestigiam este humilde blog, pelo recente e duradouro hiato nas minhas publicações aqui. Primeiro vieram às férias (Quem ainda não conhece o Rio Grande do Norte, eu recomendo!). Depois, fiquei doente. Em seguida, tive problemas com meu computador. E logo depois me vi mergulhado em um projeto que me tomou cada minuto de tempo livre...
 

Mas voltando à vaca fria, como costumam dizer, esse tal projeto a que me refiro é uma espécie de metodologia matemática para dosagem de traços de concreto baseado em todo o histórico de formulações das quais já participei e um conjunto de outros experimentos de laboratório. Um grande amigo, profundo conhecedor de planejamento e futuro Patologista de Construções acha que eu devo criar um aplicativo. Outro querido amigo, Perito de Edificações e futuro Calculista de Estruturas me sugeriu escrever um livrinho técnico (gostei dessa!). O fato é que, durante um estudo de validação de uma das teorias que este método envolve, eu esbarrei em um comportamento interessante, que vale a pena compartilhar aqui com vocês.
 

Eu estava tentando confirmar uma equação que relaciona o teor de argamassa ideal de um traço de concreto com o módulo de finura (MF) da areia utilizada. Para tal, eu realizei alguns experimentos com areias de finura bastante diferentes, mas de mesma mineralogia. A mais fina delas, com MF de 1,06, ou seja, uma areia muito, muito fina. A mais grossa com MF de 2,85, mais grossa do que eu usaria para qualquer concreto, com certeza. Este experimento, além de confirmar, com grande acuidade as previsões da referida equação, permitiu-me verificar o que acontece com o consumo de água de um traço de concreto, quando o MF da areia muda para mais ou para menos, sem que no entanto o traço seja alterado.
 

Uma das maiores preocupações do controle de qualidade de uma concreteira, ou construtora que produz seu próprio concreto, é a finura da areia. Porque, quando a areia é mais fina, ela tem um maior número de grãos por unidade de volume. Consequentemente, a área de superfície destes grãos será maior. Com isso, será necessário uma maior quantidade de água para envolver todos esses grãos, e manter o “slump” de projeto. Então, quanto mais fina a areia, maior é o consumo de água. Quanto maior o consumo de água, menor a resistência. Então, se o MF da areia variar para menos, sem que eu tenha a oportunidade de alterar o traço no dia a dia da operação, eu terei problemas. Mas a questão é: Qual o tamanho do problema?
 

A tabela abaixo é uma sugestão do que pode acontecer com o consumo de água do concreto, quando o MF da areia que você usa variar, por motivos de falha do controle de qualidade. Ela serviria para quando você está sentado na tua mesa, com o telefone no rosto, ouvindo do laboratorista que o MF da areia que chegou é de 2,2, quando o normal é 2,4, por exemplo:



 

Pois bem, seguindo nosso exemplo, a referida areia é 0,2 menor que o ideal no módulo de finura (MF é uma grandeza adimensional, ou seja, não tem unidade de medida). Então, segundo a tabela, deverá consumir cerca de 11 L de água a mais se o traço for um fck 35. Seguindo em frente em nossa hipótese, esta areia será usada para usinar o traço abaixo:
 

Água: 200 L
Cimento: 400 kg
Fator a/c: 0,500
Resistência 28 dias: 43,9 MPa (conforme a curva de Abrams)
fck: 35,0 MPa
 

Bom, com o acréscimo de 11 L de água, teremos as seguintes mudanças:
 

Água: 211 L
Cimento: 400 kg
Fator a/c: 0,528
Resistência 28 dias: 39,8 MPa (conforme a curva de Abrams)
fck: 35,0 MPa
 

E aí? 39,8 MPa de resistência aos 28 dias é suficiente para atender ao fck 35,0 MPa, mantendo um coeficiente de segurança compatível com o desvio padrão do teu processo? Talvez sim. Talvez não. Talvez sim, mas se o MF variasse 0,25 já não daria. Ou seja, caso esta tabela seja correta, temos um parâmetro para dizer se a areia pode ser usada ou não ou para definir níveis de variação para um acordo de qualidade com o fornecedor.
 

Eu digo “CASO” ela esteja correta porque não tenho nenhuma pretensão de afirmar que esses valores são universais e que devem ser seguidos por força de lei. Antes até eu gostaria de contar com a ajuda dos colegas, que enfrentam este tipo de problema, para me ajudar a conferir estes valores, se possível compartilhando suas experiências. Sobretudo porque são valores calculados sobre um número reduzido de experimentos e contendo uma relativa extrapolação, principalmente no que diz respeito ao efeito entre os diferentes fck.
 

Do meu lado, vou continuar colecionando dados assim, para tentar validar esta percepção quantitativa, talvez até adotando a tabela por um tempo no controle de qualidade aqui do departamento. E também comparando com traços experimentais, estes sim, infalíveis verificadores do efeito do MF da areia sobre o consumo de água. Mas ainda assim, espero que seja útil aos leitores, pelo menos como uma conscientização para o fenômeno e o quão pernicioso ele tende a ser para a qualidade do nosso concreto.
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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Agregados para concreto e argamassa: Um cardápio mais que variado



 

Meu amigo Lucio Pires, Gerente Comercial da Martins Lana Minerações, me levou para um “tour” pelas dependências da TCL, uma das duas plantas que a empresa mantem em contagem, MG. Já fazia, sei lá, uns 6, 7 anos que eu não visitava o lugar e me surpreendi de novo com o tamanho e a complexidade. Trata-se da maior empresa de agregados para construção civil do país e uma das maiores da América Latina. A especialidade da empresa é a customização, produzindo areias e britas em quaisquer conformações granulométricas que o gnaisse permitir. Parece que a inovação é uma vocação da empresa, em especial do seu Diretor Técnico, outro grande amigo, o Gustavo Lana.

 
Pedreira da TCL onde é extraído o gnaisse para britas e areias artificiais

 
Minha visita à TCL tinha um objetivo. Eu estava procurando uma areia específica para um projeto de pesquisa muito particular. E, diante de várias opções que o Lucio me mostrou, nenhuma se enquadrava exatamente nos parâmetros que eu estava procurando. Essa era muito grossa, aquela muito fina, a outra tinha muito material pulverizado... Enfim, boas perspectivas, mas sem atingir exatamente o meu objetivo. Tiramos a poeira e fomos encontrar o Gustavo que ouviu a minha história, sorriu e disse:

 
_Eu tenho a areia que você tá procurando. Nem o Lucio sabe ainda, mas eu tenho!

 
Ele então nos levou até uma estrutura enorme, instalada há muito tempo, ao custo de milhões e ainda à espera de uma demanda para iniciar a produção. E no fundo de um dos silos da máquina estava uma pequena quantidade da areia que eu precisava. Nem mais, nem menos. Era exatamente o que eu procurava.


 
Materiais de diversas granulometrias, separados durante os processos de britagem na TCL

 
 
Às pessoas costumam me perguntar: “Qual o melhor agregado para usar no concreto?” Normalmente eu respondo: “Aquele que estiver mais perto da obra”. E isso é uma verdade, quando não existem condições específicas. No Triangulo Mineiro usamos basalto porque estamos assentados sobre o maior derrame vulcânico do Pleistoceno. Estamos começando uma obra no interior do Maranhão onde paredes de concreto estão sendo executadas com uma areia de rio muito fina e seixo rodado como brita, porque não existem pedreiras na região. Alguns lugares são ricos em granito, gnaisse, diabasio. Outros têm muito calcário, dolomita, quartzito. O grande gargalo é o custo de transporte, porque dentro de certos limites é possível fazer concreto com agregados de qualquer origem mineralógica, desde que mantenham os requisitos mínimos de qualidade e esta qualidade seja constante.

 
Mas por outro lado, necessidades específicas de produtos especiais só são satisfeitas com matérias primas igualmente específicas. Já transportamos agregado ensacado de Curitiba para BH para obter um determinado padrão de concreto arquitetônico. Já mandamos vários caminhões de brita de BH para o Rio de Janeiro, em uma obra de concreto permeável. Já compramos basalto em São Paulo para uma concretagem em Congonhas, MG. E importamos agregado aluminoso da Europa pra fazer concreto resistente a elevadas temperaturas.

 
Hoje temos, à disposição da Engenharia de Concreto, britas de qualquer granulometria, índice de forma, cor e mineralogia que se desejar. Temos areias artificiais produzidas com equipamentos de moagem e separação sofisticados que simulam as qualidades de uma boa areia de rio, sem a variabilidade, as impurezas e o impacto ambiental. E em todas as finuras possíveis, para o tecnologista combinar conforme sua conveniência. E, muitas vezes, a escolha correta dos agregados, mesmo que a um custo comparativamente maior, pode produzir resultados de melhor desempenho e menor custo final.

 
Britadores centrífugos especiais para a produção de areias artificiais
 

 
Uma das técnicas mais comentadas para se obter um melhor custo / benefício do concreto através dos agregados é o chamado “Empacotamento de Partículas”, ou “Packing Particles”. Consiste em se obter o menor índice de vazios possível no esqueleto granulométrico dos agregados, para minimizar a quantidade de pasta de cimento necessária e elevar a resistência e durabilidade do concreto. É uma metodologia muito legal pela qual eu tenho me interessado cada vez mais, porem que negligenciei um pouco na hora de definir as minhas prioridades. Mas em 2013 (depois que voltar das minhas merecidas férias na lindíssima Natal, RN) prometo que irei levar para o laboratório e publicar aqui meus resultados.

 
Este é um assunto sobre o qual ainda podemos falar muito e este texto é apenas uma pequena introdução. É muito importante, para todos nós que trabalhamos na construção civil, saber reconhecer um agregado de boa qualidade, especificar e comprar bem, conhecer os riscos e patologias inerentes aos materiais e, principalmente, saber usar com criatividade o cardápio de opções que temos no mercado.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Resistência à tração na flexão x compressão: Uma relação não linear


 
Já faz bastante tempo que não postava nada no blog. Tempos difíceis! Mas nem por isso tempos menos produtivos. Então resolvi relatar, num texto curtinho, uma tendência com a qual tropecei por acaso no laboratório. E é sobre a relação existente entre fc (resistência à compressão) e fctm (resistência à tração na flexão). Existem algumas coisas que eu já sabia sobre isso:

·         A resistência à tração do concreto é muito pequena quando comparada à compressão;

·         A maioria dos técnicos estabelece que a relação fctm / fc é de cerca de 10%;

·         Este percentual pode variar conforme as características do traço, os materiais constituintes, o uso de aditivos, fibras (nem tanto!), etc.

O fato é que eu estava rodando no laboratório uma curva de formulação destinada a melhorar minha capacidade de antecipação diante de especificações de traços com fctm,k elevados. Coisa comum em pavimentos rígido e pisos industriais. Então, a ideia era relacionar diversos fatores a/c com o modulo de ruptura do prisma à flexão em várias idades, já que podem ocorrer demandas de carregamento precoce, como em protensão ou trafego imediato. Ai percebi que, apesar de mantidas todas as características de dosagem e todos os materiais constituintes, a relação entre a resistência à compressão do cilindro e à tração no prisma não se manteve a mesma em todos os fatores a/c, nem entre as idades.

Eu esperava que, quanto o a/c subisse, a resistência à tração caísse em perfeita comunhão com a compressão, mantendo os cerca de 10%. O mesmo valendo para as idades menores que 28 dias. Mas notei que a relação percentual variou e, notadamente, variou em uma linha de tendência bastante regular. Tão regular, que permitia até a realização de previsões com boa chance de acerto, me levando às duas hipóteses abaixo:

Primeira tendência: Quanto menor o a/c, ou seja, quanto mais forte o concreto, maior o percentual que a resistência à tração assume, em relação à compressão, sugerindo que a redução do a/c favorece mais àquela que esta.


 
Segunda tendência: Quanto maior a idade de ruptura dos corpos de prova, menor o percentual assumido pela tração em relação à compressão, indicando que o passar do tempo favorece mais à compressão que à tração na flexão.

 

 
Queria apenas compartilhar esses resultados, na esperança de que alguém possa me dizer coisas como “Todo mundo sabe disso, poxa vida!”, ou “Isso pode ser uma coisa nova”, ou “Você deve estar enganado, testa de novo”. Ou talvez alguém se anime a testar também e colocar isso a prova. Qualquer coisa, estou por aqui. Abraço forte!
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