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domingo, 17 de junho de 2012

Um pequeno cilindro de concreto



Quando eu trabalhava com construção, comprava a maior parte do concreto que usávamos nas obras. E naquela época, da mesma forma que um grande número de pessoas que compra concreto hoje, achava que a concreteira era obrigada a me enviar os laudos dos corpos de prova por eles preparados e ensaiados e que isso me bastaria. Eu não poderia estar mais enganado. Hoje sei que o ideal é, mesmo quando comprar o concreto, realizar o meu próprio controle tecnológico.

A normalização brasileira, através da ABNT NBR 12655 quando discorre sobre as responsabilidades, atribui ao construtor ou a seu preposto, o papel de realizar os ensaios para aceitação e validação do concreto. Dentre eles esta o ensaio de determinação da resistência à compressão. Neste ponto, é preciso mencionar que a norma foi muito sábia, porque parte do princípio de que mesmo que exista a boa fé, não se pode contar com ela quando o assunto é a segurança estrutural. Em outras palavras, como eu costumo dizer, não se pode perguntar ao padeiro se o pão de sua padaria é saboroso. O mais prudente é pedir a outra pessoa para provar do pão. Se você confia na concreteira que lhe presta serviço, continue confiando. Mas contrate também um laboratório terceiro para a realização do controle tecnológico do concreto.

Para começar os ensaios realizados pela concreteira, na maioria das vezes, são realizados em número insuficiente para cobrir todo o dimensionamento de lotes da tua obra. A norma que orienta o controle tecnológico da concreteira é a ABNT NBR 7212, que discorre sobre os cuidados a serem tomados na produção de concreto dosado em central. Nela, o objetivo do controle tecnológico é determinar se o processo de produção de concreto atende aos parâmetros de qualidade requeridos. Não há análise estatística de cada fornecimento, mas sim do total da produção de um dado período.

Existem vários outros benefícios do controle personalizado (feito por laboratório contratado), como a obtenção imediata dos resultados, a possibilidade de se determinar ensaios em idades iniciais (para planejamento de descimbramento, por exemplo), preparar corpos de prova excedentes por segurança, receber um parecer especializado, enfim, planejar do teu jeito.

Entretanto, o controle tecnológico deve ser deixado nas mãos de uma empresa séria, que garanta que seja bem feito. Do contrário, pode ser o início de um sério problema. Tudo porque, hoje em dia, ainda se dá pouco valor a este serviço. Muitos construtores ainda optam pelo método ou pela empresa de consultoria que requerer o menor valor pela moldagem, transporte, cura, preparação, ensaio e interpretação dos resultados dos corpos de prova. E entre essas etapas, pequenas e cumulativas falhas podem levar a seríssimos prejuízos aos corpos de prova ou ao ensaio de resistência, levando a falsas interpretações e muita dor de cabeça.

Abaixo, seguem alguns cuidados indispensáveis quando o assunto é o ensaio de Resistência à Compressão do Concreto. Cabe ao construtor selecionar o laboratório que irá lhe atender e fiscalizar todas as etapas, tendo estas dicas em mente:

Conhecer o método de ensaio

Em primeiro lugar deve-se conhecer e respeitar as normas que determinam os procedimentos de moldagem e ensaio das provas, no caso as ABNT NBR 5738 e 5739, respectivamente. Recomendo que o construtor tenha exemplares na obra à disposição do corpo técnico e use-as como tema de treinamentos. Os profissionais que irão se responsabilizar pelos corpos de prova devem ser muito bem treinados e fiscalizados. É muito comum, por questões de custo ou carência de mão de obra, o construtor realizar as moldagens dos corpos de prova e às vezes incorporar também as etapas de cura e transporte. Nada contra, mas é preciso ter certeza da perícia e responsabilidade da equipe.

Prover os recursos necessários

É preciso determinar um local na obra específico para a preparação e cuidado das provas. É preciso proteger do sol, garantir um piso plano, fornecer água, equipamentos para limpeza de formas, lubrificantes adequados, e todas as ferramentas requeridas. Deve-se cobrar constantemente a limpeza e ordem do local de trabalho. Além da garantia da qualidade técnica dos ensaios, quando o construtor demonstra a preocupação com este trabalho, através do investimento em uma boa estrutura, os funcionários percebem a importância daquela tarefe e fazem com cuidado. Do contrário, se perceberem que o próprio patrão não se importa com aquilo, eles podem negligenciar procedimentos determinantes para a qualidade.

A coleta das amostras de concreto

Deve-se coletar próximo à metade do volume descarregado do caminhão. O volume de concreto coletado deve ser bem maior que o necessário para preencher as formas de corpos de prova. A coleta deve ser feita direto da calha do caminhão. É muito comum se usar uma pá para desviar o concreto enquanto é despejado na câmara de coleta da bomba, durante o lançamento. Isso favorece a segregação e a amostra coletada não é representativa. Durante a moldagem, a cada novo corpo de prova, o moldador deve misturar novamente o concreto de modo a manter a homogeneidade da amostra. Deve-se realizar a moldagem o mais rápido possível após a coleta do concreto e evitar mantê-lo sob chuva, sol forte ou agentes contaminantes diversos.

Cuidados com os corpos de prova

As formas precisam estar limpas, integras e em conformidade com as dimensões requeridas. A lubrificação é muito importante, para garantir a desforma sem agressões. A sequência de preenchimento, com o correto número de camadas e golpes e a forma de se compactar o concreto é muito importante. O acabamento do topo é imprescindível e para tal eu recomendo a adoção da colher de pedreiro como a ferramenta padrão. Os corpos de prova (CP) moldados devem ser mantidos à sombra e totalmente planos, evitando serem movidos no período correspondente entre o fim de pega do cimento e a idade de 24 horas. A desforma deve ser realizada no tempo certo, nem mais cedo nem com atraso excessivo e sem danos aos CP. A identificação deve ser feita o mais rápido possível para não adiar desnecessariamente a cura.

Transporte e Cura

A cura deve iniciar imediatamente após a desforma. Eu sou partidário de que os CP devam ser transportados ainda dentro das formas e desformados no laboratório. Mas se optar por desformar na obra o construtor deve garantir todos os cuidados inerentes a esta operação, prover um tanque de cura e transportar os CPs o mais tarde possível, próximo da data de ensaio e muito bem protegidos de choques. Para a cura, recomendo o básico: um tanque de água saturada com cal. Já vi experimentos com cura química, mantas umedecidas, aspersão... Esqueçam. Neste caso o mais simples é sempre o mais assertivo.

Preparação de topo

Estamos em uma época em que o enxofre está sendo banido dos laboratórios e substituído por outros métodos. Eu já testei ou observei praticamente todos e posso afirmar que mesmo os que funcionam tão bem como o capeamento com enxofre requerem cuidados adicionais às vezes negligenciados. E comparado com o longo tempo em que o enxofre veio sendo usado, ainda são de certa forma experimentais, guardadas as devidas proporções. Quando o enxofre não for possível, o meu método favorito é o neoprene, na dureza correta, com o “capacete” correto e precedido da retificação mecânica do topo.

O Ensaio

O cuidado com o equipamento é muito importante, como a calibração a manutenção da máquina de ensaio. Mas o mais importante é o Laboratorista. Este deve saber interpretar as minucias do ensaio, como os planos de ruptura dos CPs, a velocidade de carregamento, a centralização do CP no prato da máquina, o momento exato da ruptura total, enfim, deve ser um perito no assunto.

Quando estes cuidados não são tomados, os desdobramentos são muito mais onerosos e desgastantes que o próprio ensaio. Já vi muitas vezes serem lançadas dúvidas sobre a estabilidade de estruturas que estavam perfeitas e a algumas delas vi demolir. É preciso considerar que o custo percentual do controle tecnológico é muito pequeno quando comparado com o custo total de processos como extrações de testemunhos, revisões de projetos e reforços estruturais. Sem falar no desconforto e stress psicológico que é lidar com a dúvida sobre a segurança do teu empreendimento inteiro, por causa de uma coisa tão pequena e aparentemente tão simples como um corpo de prova de concreto.

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